“Vocês têm um poder enorme nas mãos” (continuação)
POLITICANDO – E era esse um dos papéis do sindicato?
Nicolas – Era. A gente tinha uma atuação diária na vida estudantil. Muitas vezes por falta de informação da própria faculdade os alunos chegavam fora de prazo para fazer a matrícula. Duzentas, trezentas pessoas fora de prazo. Então, dependendo do caso, ou a gente informava ao aluno em como resolver o seu problema ou, pros problemas mais delicados, a gente acompanhava o próprio estudante. “A gente vai te pegar pela mão e a gente vai com você ate lá pra resolver o teu problema”. Com problemas mais graves ainda a gente geralmente dizia pro aluno: “olha, não se mete que você vai só atrapalhar, deixa com a gente”. Todo aluno que chegava com problema preenchia uma ficha com dados de contato e descrição do problema e as atitudes já tomadas pelo próprio aluno. E a gente levava os problemas dos alunos até o próprio Conselho de Administração. Muitas vezes pra resolver esse tipo de problema a gente tinha que ter um apoio político. Por exemplo, a gente ta com um problema de cinqüenta alunos fora de prazo, por causa da faculdade. E a faculdade não quer deixar eles se matricularem. Mas a gente ta sabendo que, sei lá, a faculdade quer ampliar a biblioteca e essa ampliação vai ser votada no conselho de Administração. E a gente percebe que o nosso voto vai ser decisivo. Se a gente consegue unir o sindicato, os nossos 10 votos vão decidir se a biblioteca vai ser autorizada ou não.
POLITICANDO – Como era a relação do movimento estudantil francês com o corpo docente das faculdades?
Nicolas – O corpo docente também tinha sindicato. Nesse sindicato tinha representantes estudantes e professores, na mesma estrutura sindical. Com o sindicato dos professores a gente tinha boas relações porque a gente tinha mais ou menos a mesma política global, as mesmas idéias. Mas tudo era jogo político.
POLITICANDO – Todos os grupos tinham sindicatos e representante no Conselho de Administração?
Nicolas – Tinham. Qualquer grande movimento social ligado à faculdade rolava antes uma pré-reunião entre os representantes do sindicato: estudantil, dos funcionários, dos professores.
POLITICANDO – Você ingressou no movimento estudantil na faculdade, né? O que te atraiu no movimento estudantil?
Nicolas – Eu era um simples aluno e não estava ligado a nenhuma associação, a nenhum sindicato. Quando começou essa greve diariamente rolava a assembléia geral que ia decidir quais as ações tomadas, se ia continuar a greve, etc. Eu assistia a todas e via a atuação de todos os lideres de sindicato lá e comecei a me interessar. Já que estamos nessa, vamos em frente. Eu estava apoiando a idéia de greve e a minha reivindicação era totalmente embasada. Eu não me afiliei a nenhum sindicato antes do final da greve. Eu e os outros participantes da greve formamos um coletivo de estudantes e na época eu era a favor de uma união sindical para esse movimento de greve porque eu tava vendo que o próprio movimento tava sendo atrapalhado por divergências sindicais. Eu queria fazer parte da vida social da faculdade e depois dessa greve eu entrei no sindicato, na Unef. Eu vi que o sindicato tinha um papel importante, que ajudava muito a resolver os problemas. Do problema pessoal, de cada caso, a problemas mais vastos, problemas sociais... A gente tinha o objetivo de participar das grandes questões sociais, seja desemprego, seja racismo, seja política... O jovem francês estudante é muito politizado. Tem um conhecimento mais profundo e um interesse maior pela política. Geralmente pela esquerda, a juventude é da esquerda. Mas número de estudantes filiados ao sindicato não era tão grande. Acho que nem chegava a 1%. De membro ativo era pouco.
POLITICANDO – E quando tinha uma greve com a dimensão da que você contou, todos os alunos aderiam?
Nicolas – Todos não. Mas o número era bem grande. Tinha defensor ferrenho da volta da greve, tinha confronto, tinha tudo que você podia imaginar em um movimento grande de greve.
POLITICANDO – A imprensa brasileira costuma reportar os movimentos estudantis como baderna, anarquia, pura rebeldia de jovens que não estão preocupados com as reais causas do movimento. E essa acaba sendo a visão da população brasileira em geral sobre a política estudantil. E na França? Qual a imagem do movimento estudantil diante da mídia e dos próprios franceses?
Nicolas – A mídia de direita geralmente caia em cima. Já a mídia mais liberal, mais libertária nos apoiava. A gente tinha que ter relação boa com a mídia. Tínhamos sempre o nosso orador, aquele que falava melhor, que ia conversar com os jornalistas, aquele que era mais fotogênico e a menina mais bonita iam fazer a entrevista com os jornalistas. A gente tinha nossos Relações Públicas. Muitas vezes a gente não agradava, mas a gente procurava midiatizar ao máximo nossas ações porque o apoio da população era de fundamental importância. Então nós fazíamos ações que chamavam atenção da imprensa, como bloqueio da cidade, passeata. Nós tentávamos fazer ações mais “populistas”, pedágio livre, por exemplo. A gente ocupava o pedágio e deixava os carros passarem de graça. A gente chama atenção, a gente sabe que vai rolar polícia, então vai chamar mais atenção ainda. E a população vê assim: “olha só, estão deixando a gente passar de graça, legal”. Fora isso a gente distribui panfletos, explica: “estamos fazendo isso para chamar atenção, porque a nossa faculdade está passando por este e este problema”.
POLITICANDO – Você ainda acompanha as manifestações do seu sindicato na França?
Nicolas – Só pela televisão, quando é uma manifestação grande. Os amigos sempre dizem: “você ta perdendo, porque a coisa ta legal”. Mas, no geral, não.
POLITICANDO – E aqui no Brasil? Você participa de algum movimento político?
Nicolas – Aqui no Brasil não quero me envolver. Nem tenho direito de me envolver. Meu visto não me permite ter nenhum envolvimento em movimentos políticos e sociais. É uma fase que já passou. Foi legal enquanto durou.
POLITICANDO – Você acha, então, que movimento estudantil é fase de pós-adolescente?
Nicolas – É e não é. Ou você decide entrar de vez na vida política ou você pensa “eu fiz o meu papel na faculdade, ajudei muitas pessoas”. Eu estou aposentado. Já virei a página.