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Estudante Francês

 

 

“Vocês têm um poder enorme nas mãos” (continuação)


POLITICANDODurante a sua atuação no movimento estudantil francês de que reivindicações você participou?

Nicolas – Eu comecei num momento de greve em 2000. A nossa faculdade era pública, projetada pra acolher entre dez e onze mil estudantes e estava com um efetivo de 24 a 25 mil estudantes. Então, superlotação: o anfiteatro que era projetado pra 200 alunos às vezes estava com oitocentos, novecentos alunos dentro, em pé. Muitos problemas, o estado de manutenção da faculdade e muitos problemas técnicos, físicos da faculdade. E aos poucos juntaram-se outros problemas. Essa greve não deu em muita coisa porque o governo e a faculdade ficaram muito cansados. Depois de um mês e meio de greve os alunos não tinham mais fôlego para agüentar. Mas a gente conseguiu a construção de um batimento administrativo novo, a contratação de mais professores, de mais funcionários. Não foi um mês e meio de greve à toa. Mas diariamente a gente cuidava de casos estudantis. Alunos que estão fora do prazo para inscrição, alunos que tem problemas para trancar uma cadeira, para se matricular numa cadeira. Enfim, pequenos problemas que, em uma faculdade pequena muitas vezes são muito complicados para se resolver, mas lá, numa faculdade do tamanho daquela, com um batimento administrativo com três andares, quarenta salas em cada andar, com secretarias que você tem que enfrentar pra conseguir falar com tal responsável... Era muito complicado.

POLITICANDOVocê está falando no caso de faculdade publica...

Nicolas – Pública. Na França a maioria das faculdades é pública, aonde o aluno estuda de graça ou paga uma pequena taxa de matrícula e até muita bolsa. Tem muito aluno bolsista, que ganhavam pra estudar. Então nosso cenário era a faculdade pública. Éramos completamente opostos à idéia de faculdade privada. Para a gente o papel do estado era fornecer educação de qualidade e gratuita. Inclusive ajudando os que não podem pagar. O nosso lema na época era “Estudar é um direito, não um privilégio”. Pessoalmente eu gostaria de poder aplicar aqui no Brasil que a realidade brasileira, estudar é um privilégio. É um grande privilegio só concedido a uma certa categoria social que tem dinheiro para pagar uma faculdade particular ou estudar bastante para poder entrar na federal ou na estadual.

POLITICANDOE como as faculdades francesas vêem esses movimentos estudantis?

Nicolas – Tudo era um jogo político. Tinha uns presidentes de umasNicolas Eldarov | Foto By Barbara de Salvi faculdades mais esquerdistas que os outros, então dependia. Mas nunca chegavam a apoiar, porque para eles a gente atrapalhava. Eles tinham certa visão, nós tínhamos a nossa e muitas vezes a gente tinha papel de oposição. Não era a oposição “a gente contra vocês”. Era trabalhar em conjunto. Mas muitas vezes a nossa política era a oposição. Dependendo da administração da faculdade, essa oposição era mais ou menos agressiva, forte. Mas pelo próprio estatuto da faculdade a gente tinha que existir. No estatuto da minha faculdade cada sindicato ou associação estudantil que tinha pelo menos um representante no Conselho de Administração ou no Conselho de Estudantis tinha que ceder um local, uma verba proporcional ao numero de representantes nesse conselho, uma linha telefônica com acesso a internet, direito de tal numero de xérox, tal numero de impressões, de folders, de panfletos, etc. Dependendo da faculdade era com má vontade ou boa vontade. Mas eles tinham que nos apoiar.

POLITICANDONicolas, você chegou ao Brasil há quatro anos com essa mentalidade de estudo como direito e não como privilégio. Qual foi a sua impressão do movimento estudantil daqui do Brasil, principalmente como acadêmico de uma faculdade particular daqui?

Nicolas – Eu sou estudante de uma faculdade particular aonde os alunos pagam para estudar. Quando eu cheguei aqui eu fiquei surpreso de ver que não tinha DCE (Diretório Central dos Estudantes), ou tinha, mas... Mas eu via: qual o papel político do DCE? É agilizar a carteirinha da meia passagem? É filiada à Etusa? Ele tem como função organizar calourada? Eu sei que tinham outros papéis, mas, gente, vocês estão numa faculdade particular, vocês pagam para estudar aqui. Vocês têm um poder enorme nas mãos! Lá na França nós muitas vezes éramos pagos para estudar. Aqui você paga, nem precisa fazer greve. Faz greve de pagamento! Pensa no poder que você vai ter! Pra onde vai o dinheiro que o estudante paga? Temos aqui uma visão que, pra gente, na época, era um horror: a gente é consumidor da educação. Ok, mas, pelo menos, se você consome um produto tem direito à SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) da própria empresa. Se você não está satisfeito com a SAC você vai recorrer ao Decon. Para continuar com essa metáfora, essa comparação: a SAC é o DCE e o Decon é o que? O Mec (Ministério da Educação) que tem o papel de SAC? Quando tem um problema aqui, em uma faculdade particular em geral, a quem eu vou recorrer? Bom, eu vou ao NAA (Núcleo de Atendimento ao Aluno) e aí eles ou não têm ciência de como resolver o problema ou não têm autoridade e me mandam pro diretor acadêmico. E o diretor acadêmico ou não tem paciência ou não tem vontade ou tem até má vontade de resolver o meu problema... E muitas vezes eu tenho que recorrer ao coordenador, que é uma figura mais próxima ao aluno.

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