Entrevistados

Home

André Haguette

DCE

Mariano de Freitas

Maria Luiza

Estudantes

Estudante Francês

 

 

“Vocês têm um poder enorme nas mãos”

Na França Nicolas Eldarov esteve à frente de manifestações estudantis que tomaram proporções nacionais. Hoje, estudando no Brasil, ele nos conta suas impressões acerca da política estudantil local e discorre sobre a necessidade de fortalecimento dos movimentos.

Hoje ele é piloto e estudante de Administração em Fortaleza. Mas aos vinte anos cursando paralelamente as faculdades de Biologia e de Letras em Montpellier, no sul da França, se interessou pela política estudantil a partir da observação da organização e atuação dos sindicatos. Filiou-se, então, ao centenário sindicato Unef (União Nacional dos Estudantes da França) e, mais tarde, participou da fundação da Ugem (União Geral dos Estudantes de Montpellier) de onde se tornou vice-presidente.
Em entrevista ao Politicando Nicolas Eldarov contou como se organizam os sindicatos estudantis na França e delineou o funcionamento dessas organizações dentro das faculdades. Lamentou que os estudantes brasileiros, em especial os alunos de faculdades particulares, desperdicem o enorme poder que têm nas mãos. Para ele a realidade de estudo como um privilégio alcançado por poucos brasileiros é passível de transformação a partir do momento que os estudantes se organizam e tomam consciência do que lhes é de direito. Ele recorda com orgulho da atuação política na França, mas se diz “aposentado” dos movimentos por achar que sua tarefa foi cumprida.

POLITICANDOA França é conhecida como um país onde os movimentos político-estudantis estão bastante amadurecidos. Conta um pouco pra gente da forma de atuação dos alunos ligados ao movimento estudantil francês.

Nicolas Eldarov – Eu comecei a participar dos movimentos estudantis em 2000 quando começou uma grande greve que se iniciou na minha faculdade e depois, como bola de neve, se espalhou pelas faculdades da Franca inteira. Foi mais ou menos um mês e meio de paralisia total de quase cem por cento das faculdades. Durante esse movimento eu comecei a observar como tudo funcionava. Comecei a me interessar e ver que realmente funcionava, que tinha estrutura, vários sindicatos... E depois desse movimente escolhi entrar na Unef que era o segundo maior sindicato estudantil francês. Se não me engano tem mais de 100 anos de historia. Começou a crescer durante a Segunda Guerra Mundial e os alunos desse sindicato entraram na resistência armada, guerrilha contra a ocupação nazista... Depois veio maio de 68, etc, etc. Eu era membro ativo na Unef que foi o primeiro sindicato que eu aderi. Depois de certa discordância política começou a reunificação desse sindicato com outro, a Unef-Id (União Nacional dos Estudantes da França Independente e Democrático). E eu era contra essa reunificação e a gente decidiu criar nossa própria estrutura que virou a Ugem (União Geral dos Estudantes de Montpellier) na qual eu fui o vice-presidente.

POLITICANDOQual era o seu papel como sindicalista na França?

Nicolas – Meu papel como sindicalista na época e membro eleito do Conselho de Administração da faculdade era defender os direitos do aluno. Todos os assuntos gerais internos da faculdade passam pela aprovação do Conselho Administração. Lá, os estudantes têm um certo número de cadeiras e a cada dois anos acontece uma eleição. Cada sindicato apresenta uma chapa com nomes ordenados em número um, número dois e número três e, dependendo do resultado das eleições, vamos dizer que tem dez vagas no conselho de administração, meu sindicato consegue 40% dos votos então vão 4 representantes do meu sindicato pro Conselho de Administração. O Conselho de Administração, assim como numa empresa, é um lugar fundamental na faculdade porque tudo é decidido lá. Cada voto é igual e não existe direito de veto. Os estudantes não eram a maioria, tinha o presidente da faculdade, o vice-presidente, o tesoureiro, o sindicato dos professores, dos funcionários... Mas a gente tinha um certo peso. Fora o Conselho de Administração tinha um outro conselho que chamava, o que a gente pode traduzir como Conselho Estudantil, que cuidava em particular da vida acadêmica da faculdade. Esses dois conselhos eram chamados de Conselhos Centrais, aonde todas as decisões relativas à faculdade eram tomadas. Existiam outros conselhos menores específicos a cada curso, um conselho pro curso de jornalismo, outro do curso de administração, de marketing...

POLITICANDOTodos tinham representação estudantil?

Nicolas – Todos com representação estudantil. Alguns tinham só vinte membros, mas a gente tinha representante em todos. As reuniões do conselho aconteciam uma vez por mês. No caso de greve, etc, acontecia com mais freqüência.

POLITICANDO - Os sindicatos e alunos franceses têm ligação direta com partidos políticos?

Nicolas – Vamos dizer que oficialmente não. Claro que tinha certa simpatia. A representação sindical estudantil ia da extrema direita até a extrema esquerda. Oficialmente não tinha nenhuma relação direta entre sindicatos e partidos políticos. Mas é obvio que entre sindicato e partido político rolava uma ajuda colateral que ia até o financiamento do sindicato por partidos políticos. Totalmente em off. Já rolaram até escândalo com esses apoios financeiros do partido pro sindicato. Mas, para muitos, o sindicato estudantil era um “tramplin” pra vida política. Até o prefeito de Montpellier que é uma cidade de tamanho médio, mas economicamente muito pesada no sul da França, começou na Unef.

Página 1
Próximos : 2 - 3

 
Esta site é parte integrante do projeto da Turma de Redação Jornalística 4 - da FANOR - 2006.2.