TOMAR O CÉU DE ASSALTO
Essa era a expressão do filósofo e sociólogo Karl Marx, que motivavam os movimentos estudantis da década de 60. Entre eles estava Maria Luíza Fontenele. Um exemplo de coragem e força do Ceará.
Maria Luíza é engajada em movimentos políticos e sociais desde cedo. Durante sua vida estudantil foi presidente do diretório central do curso de ciência sociais, da Universidade Estadual do Ceará, em 1964, antes do golpe militar. Hoje, ela é uma das maiores porta-vozes do Movimento Pela Emancipação Humana no Estado, mas conhecido como “Crítica Radical”. E esta Maria, mesmo não sendo de Milton Nascimento, é uma das maiores personalidades da mulher que tem força, raça e gana da sociedade de Fortaleza. Não desiste de enaltecer o ser humano e possui uma estranha mania de ter fé na vida, sempre. Mesmo que esta fé seja no fim do capitalismo.
POLITICANDO – Desde quando começou o seu envolvimento com a política? E como caracterizou a sua participação nos movimentos estudantis?
Maria Luíza – Antes da vida universitária já participava de manifestos sociais como: Aliança Operária Estudantil Camponesa, União Estadual dos Estudantes (UEE) e Centro Popular de Cultura (CPC), que fazíamos inclusive teatro sobre assuntos ligados ao colegiado, mas eram sempre movimentos valorizando os ideais coletivos. Estávamos nas manifestações sempre, mesmo sem interesses políticos. Às vezes só para fazer zoada mesmo. Então ingressei no curso de serviço social em 1962, no curso de serviço social da Universidade Estadual do Ceará (UECE). No ano em que entrei pra faculdade, me tornei vice-presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE). E em 1964, durante o Golpe Militar, eu estava na presidência do Diretório Central dos Estudantes (DCE) do curso de serviço social. E o quê caracterizou o movimento em 62, 64, até a Ditadura Militar, era a perspectiva de você tomar o "céu de assalto". Isso estava muito patente na juventude e você tem em 68 (Revolução Maio 1968), em Paris, que de certa forma deu assim para o reflexo desses movimentos que estavam espalhados no mundo todo, uma conjugação de revoluções, como: a revolução estudantil, a revolução cultural, a revolução sexual e várias revoluções que estavam acontecendo com resultados de uma insatisfação que as pessoas tinham antes do próprio desenvolvimento capitalista. Desta época, já começa a existir uma reflexão em torno de toda essa orientação política e dos paradigmas que orientam o agrupamento a qual eu pertenço hoje, que é o Movimento de Emancipação Humana. Compreendendo que havia algo que não só a classe operária, o caráter revolucionário estava contido na máxima da luta anti-capitalista. POLITICANDO – Como você analisa o enfraquecimento dessas revoluções, tornando hoje as pessoas muito passiva das situações?
Maria Luíza – Isso é conseqüência da crise que o capitalismo está vivendo. Com o desenvolvimento do capitalismo houve perda das forças dessas revoluções.
POLITICANDO – Inclusive dos movimentos estudantis, tornando os estudantes mais passivos do que na década de 60?
Maria Luíza – É. Porque enquanto o capitalismo se desenvolvia, na década de 60, 70 as demandas eram mais rapidamente satisfeitas pelo sistema do que hoje, que o sistema está em crise e não tem como responder as demandas dos movimentos sociais em geral. Em outro dado, hoje a sociedade, ela está dominada por um processo de globalização, onde a questão da comunicação é central. Então você tem uma forma de comunicação que é direta com os indivíduos, com os meios de comunicação de massa. Quando na época, as nossas, o nosso processo de comunicação era muito mais forte na expressão do teatro, do cinema, da poesia, da música, portanto, da coisa coletiva, que você tinha que está junto para expressá-la, do que hoje. Onde você tem um processo de individualismo, de individualização dos seres humanos. Inclusive não só isso, mas também na relação dos jovens, na relação direta com os meios de comunicação de massa, internet de forma especial, mas também a relação com o meio, com o próprio mercado. Enquanto que naquela época você era identificado pelo seu pensamento e pela sua forma de luta, hoje, os jovens se identificam pelo que usam. Ou seja, qual o tipo de "fona bom" (risos), qual o tipo de "conga", que era da nossa época (risos). Qual o tipo de tênis, qual o tipo de mochila, qual o tipo de relógio, qual o tipo de carro. Dependendo do padrão social. Isso, os jovens tentam se identificar a partir de algo individual e numa pesquisa realizada, tanto nos EUA, como também aqui, mostra exatamente isso. Ou seja, como você vai vencer na vida? É uma das perguntas. Ele (o indivíduo) acha que é por conta do mérito pessoal. Se essa pergunta fosse colocada naquela época, você dizia que era pela luta. A gente dizia que era através da UNE (União Nacional dos Estudantes). Para o estudante, nós falávamos muito mais os nossos órgãos colegiais.
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