O porrete agora é outro! | Artigo
A crise das ideologias e a polarização ideológica na atual política brasileira.
O Dr. Mariano de Freitas, secretário da Regional II de Fortaleza, em entrevista à Politicando, ressaltou que no Brasil, a partir do sufrágio que re-elegeu o Presidente Lula, as posições políticas se tornarão mais claras e contundentes. Segundo ele, a sociedade brasileira terá que tomar uma posição irrefutável de suas crenças a partir das ideologias políticas que se apresentam.
Com um histórico invejável de engajamento político, o Dr. Mariano acompanhou desde seus tempos de estudante - em meados da década de sessenta – todos os movimentos estudantis por liberdade, dignidade e bem estar da sociedade. Sua análise lúcida de que não necessariamente em 64 ou 68 os estudantes se engajaram em política, mas que isso foi o resultado de um processo que vem desde as décadas iniciais da história de nossa república, foi bastante esclarecedora. Tem-se em mente, de maneira romântica, que naquela década, em que todo o mundo parecia se engajar em alguma ideologia partidária, as pessoas sofreram algo como uma revelação de que deveriam se manifestar e exigir direitos que sentiam cerceadas.
Na verdade, o jovem politizado daquela época refletia uma formação intelectual que vinha desde o seio da família até a escola, e consequentemente o meio acadêmico. Esse ambiente favorecia o inconformismo com o que se estava sendo imposto. A grande diferença é que naquela época as ditas elites ainda não tinham tomado conta da grande mídia, ou ao menos não a utilizava como fomentadora de suas idéias. Para Mariano, o que se vê, assiste, aprende, ouve o se entra em contato pela mídia e pela escola é uma interpretação, uma perspectiva, mediada pelas elites, para a formação de uma sociedade que aceita a situação como ela está, ou como é apropriado para as classes dominantes. Essa interpretação Nietzscheana do cenário político é fruto de sua observação ao longo desses anos de dominação do mercado em nossa história recente.
Segundo suas próprias palavras “o porrete da persuasão da mídia” faz com que o jovem hoje em dia não se mobilize em lutas políticas. “Eu acho que esse pensamento de que o foco deve ser nas pequenas coisas, é um pensamento de direita, claramente de direita, é um pensamento que ajuda a manter o status quo. Você não questiona o geral, e se a situação está no geral, eu não vou resolver uma ponta aqui uma ponta ali. Eu não resolvo nada. Eu tenho que resolver a superestrutura”, completa, analisando o discurso de outro importante ideólogo político, o Professor Doutor André Haguette, do Núcleo de Ciências Sociais da UFC, também em entrevista ao grupo. O discurso do professor Haguette ressalta que houve progresso social no Brasil – pouco, mas houve - principalmente nas décadas que sucederam à abertura política na década de oitenta. Várias ações, capitaneadas principalmente pelo terceiro setor, foram importantes nesse processo, segundo sua análise.
Essa polarização, que o Dr. Mariano de Freitas preconizou em sua entrevista, parece se contrapor tanto ao pensamento do Professor André Haguette quanto ao de Maria Luiza Fontenele, ex-prefeita de Fortaleza e atual integrante do Movimento Crítica Radical, entidade com orientação marxista diferenciada, que não prega o socialismo, mas busca uma alternativa aos modelos políticos implantados com ênfase na emancipação do indivíduo da política institucionalizada.
A instituição ainda é o foco do ideal de Mariano de Freitas. A mudança da superestrutura, a subversão do poderio da mídia, a priorização do ser humano em suas necessidades. Mas como mudar essa realidade tão bem construída através da mídia? Como voltar a incluir aqueles que o mercado teima em tornar invisível e descartável? É conceito antigo das teorias da comunicação a construção da realidade através dos meios de comunicação, mas parece não haver outro meio senão a subversão análoga à revolução bolchevique de 1917, na Rússia. A busca democrática e institucional, atual viés adotado por políticos como Lula, tem pela frente um longo caminho para desconstruir a má influência do mass media no caráter individual das percepções e inserir uma outra massa, essa humana, na sociedade brasileira.
Se isso não pode ser considerado uma ideologia, não sei como definir. A crise das ideologias não parece ter atingido esse médico cearense que sempre pautou suas ações na responsabilidade social e no respeito ao outro, esse ser tão desprestigiado.
José Pinheiro |