O Brasil não será mais o mesmo. Vai polarizar. (continuação)
POLITICANDO - Como as pessoas se comunicavam, como era feito a difusão das idéias desses militantes naquela época?
Mariano - Isso aí tem outras ligações. Por exemplo, Fortaleza tem dois milhões e quatrocentos mil habitantes. se o Ceará tivesse tido desenvolvimento normal em todo o seu estado, provavelmente Fortaleza teria um milhões e quinhentos isso facilitaria em grande parte a convivência. Imagine o que é uma cidade com quinhentos mil habitantes na década de sessenta, com uma Universidade sendo criada. Essa universidade adquiria uma importância enorme, tinha mais força do que a mídia, essa coisa era tão forte que Fortaleza tinha nove jornais diários. A Praça do Ferreira era um centro de agitação, todas as pessoas passavam por ali e tudo o que ocorria na cidade chegava ali na Praça do Ferreira, e tudo o que acontecia na Praça do Ferreira chegava na cidade toda.
POLITICANDO - Em que momento da sua história o senhor conseguiu mensurar o poder dos adversários ?
Mariano - Em 1968, no dia antes do AI-5, nós fizemos uma passeata em Fortaleza. Os estudantes da Federal com 20 mil pessoas. E só tinha 6 mil estudantes, as mães de família, os operário, por que veio com tanta força o AI-5? Porque o golpe de 64 não foi o bastante para matar com o movimento social. Então nesse momento eu vi uma grande força dos estudantes, eles apenas representavam um desejo coletivo,
Com o Ai-5, os operários não podiam mais, os trabalhadores do campo também não podiam mais, estavam todos presos, então aquilo ali era uma espécie de válvula de escape do cativeiro, mas eu descobri isso depois de muito tempo, quando foi pra eu sentar e pensar sobre isso, na hora em que eu fui escrever o livro.
POLITICANDO - O senhor se considera de esquerda? Por que? Como o senhor vê a participação da esquerda no atual momento da história?
Mariano - Eu me considero. Hoje eu to assistindo uma disputa eleitoral que tem um operário capaz de ganhar essa eleição, e capaz de continuar, a melhorar a vida das pessoas. O Brasil fazia muitos anos que não crescia, e o hoje está crescendo 3% ao ano, e pode crescer mais. Nós acabamos de eleger uma prefeita aqui democrática, acabamos de eleger um senador, um homem que veio da comunidade, um homem que não tem falcatrua na sua vida. Aqui no Ceará nos estamos vivendo um momento especialmente bom, inclusive com a eleição do Cid Gomes
POLITICANDO - O senhor acredita que os debates entre os candidatos á presidência Lula e Alckmin verdadeiramente atingiriam as massas?
Mariano - As pessoas entendem pelos seus símbolos. Um trabalhador que tenha o curso primário mal feito e lá o cara diz com aquela agressividade do Alckmin pensa “eu não vou votar nele, esse cara aí é um delegado de polícia” ele tem outro valor para julgar. . Então cada pessoa analisa, e toma sua decisão no debate, pelo ângulo que está apto a comparar. Quando o cara diz que vai invadir a Bolívia, o intelectual rejeita. Cada eleitor tem uma psicologia própria que vai da sua vivência a seu nível intelectual.
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