O “Pensamento Jovem” ( continuação )
POLITICANDO - Qual o pensamento, qual é a característica da juventude?
Aécio - Se a gente parar pra pensar a gente mesmo vai ter um pensamento de mudança e transformação, e a gente vai ter o pensamento de manutenção do status sólido. Esse pensamento de transformação chamo de pensamento jovem, que é o pensamento de mudança da transformação. E a juventude tem essa característica.
POLITICANDO - E qual você considera a bandeira atual que deve ser defendida pela nossa juventude?
Aécio - Agora nós temos que ser contra o capitalismo sólido, né, por intermédio, da forma com que ele se encaminha na visão do lucro pelo lucro e da exploração do outro pelo outro. Os hippies foram os precursores desse tipo de bandeira humanista , como o grupo da década de 70, que eram tão mal falados, e eram os grandes humanistas. E com o dissolver dessas três grandes tribos, a juventude que já lutou com o comunismo no mundo, a juventude que já deu o tom é toda a visão do que a gente tem de comunismo no mundo. Mas quando ela lutou com o comunismo, lutou por uma única coisa, porque o capitalismo vendeu um sonho na época, um sonho que ele não cumpriu, um sonho que diz que você trabalha e, ao trabalhar, você é feliz e quando você se tornar feliz o sistema lhe abraça e tudo fica maravilhoso.
POLITICANDO - Você acha que a mídia colaborou com essa ilusão do capitalismo?
Aécio - Com certeza. Essa juventude não tem distinções. Então o jovem que está na rua não rouba um tênis, rouba um Nike e a possibilidade de se divertir e de ser aceito entre os seus. E a mídia ela constrói o mundo do espetáculo, constrói muito essa visão. Por exemplo, você chega num carrão e todas as loiras (que tem um padrão de beleza ocidental também, né) vão estar ao seu lado, daí você fica “Hollywood”, se transforma em sucesso, né. Só que a juventude comprou esse sonho, que é um sonho maravilhoso pra todos nós, que é lenda também, né. E esse sonho de felicidade, o capitalismo não cumpriu por conta da revolução tecnocientífica, do impacto dessas tecnologias nas mudanças e nas bases sociais da sociedade e tudo. Mas essa juventude ela tem uma característica de transformação, de mudança, ela não desistiu do sonho em nenhum momento. Por exemplo, no Rio de Janeiro você tem aquele jovem que prefere morrer aos 20 anos, aos 19 anos, aos 18 anos; e que prefere ficar ali trabalhando para o narcotráfico a passar o resto da vida sentado numa poltrona com a boca escancarada cheia de dentes e esperando a morte chegar.
POLITICANDO - Como foi dito, o jovem está inserido num processo histórico. Além da influência da mídia, o jovem está numa fase de construção da sua identidade...
Aécio - Como se vê, a elite hoje vive nos aquários dos seus apartamentos; os filhos dela estudam nas prisões de suas escolas e se divertem nas jaulas de seus shoppings centers. Quando, por exemplo, a polícia militar vai pra periferia e ela ...Ela tira...Ela traça um perfil do que é o jovem “desenvolto”. O que é um jovem desenvolto? É aquele jovem que usa boné, que tem um brinquinho, que tem um cabelão, uma calça frouxa, uma tatuagem. Mas esse é o jovem da Malhação; é o que o jovem da periferia quer ser. A polícia militar está ali pra construir uma “higienizaçao” social, está ali pra tirar os pobres coitados do espaço público para que a elite tenha acesso a ele; e ao, mesmo tempo, essa juventude que está morrendo aí, não tem renda mínima, não tem salário mínimo. Então há toda uma guerra, uma guerra civil estabelecida que urge uma mudança. E quem conseguiu colapsar essa guerra? Foi a juventude. Agora essa juventude ela é dirigida pelos partidos políticos, é dirigida por mim, em nome da vanguarda pelo movimento estudantil, ou pela colega aqui? Não é, e por que? Porque foi estabelecida uma cultura, uma cultura de aparelhamento das idéias, nós fomos vítimas da geração que nos libertou. Como assim? A geração anterior é que era a geração política, era a geração que lutou contra a ditadura, que lutou pela democracia, a geração que fez história, era a geração em que deu o livre estado de poder hoje de fazer o que está fazendo, ta entendendo? E são tão cruéis com a nossa geração que eles não nos permitem nem dizer que nós estamos voltados para a presidência eles dizem que a gente rouba a vida, entendeu? Então nós fomos vítimas dessa geração que nos aparelhou intelectualmente. Foi como a vanguarda do movimento estudantil, uma repetidora de uma política que não corresponde ao contexto dessa juventude, que traz um enfrentamento do dia a dia contra a polícia militar, contra o sistema privando a burguesia do meio do espaço público; contra ao jovem querendo uma perspectiva de ser aceito e respectivamente de ser amado e de ser feliz.
POLITICANDO - Portanto, você acredita que deve haver uma “novo modelo de juventude”?
Aécio - Então, a juventude, de que falei, deu uma contribuição importante para a história da liberdade. Mas que, como todo processo de mudança, ele é psíquico e já se exauriu. Então nós precisamos construir um novo modelo. E é preciso surgir uma nova geração que não tenha o sofrimento da década de 70, e que não tenha a paranóia e todas as coisas que um sistema que investiga, que é dado contra ele construir; e que possa falar a linguagem dessa juventude que está na massa colada em torno do sistema, e essa massa não é definitivamente as lideranças que estão no movimento estudantil hoje. A juventude tem tanta consciência de humanismo de luta democrática, que a gente pode ver assim: a gente está no DCE, e a bala está rolando... No DCE é ano de eleição, essa coisa toda. Os amigos e a gente acabam seguindo mais a orientação dos partidos do que a orientação da galera da juventude; e a gente chega em um ponto que se distancia tanto daquela nossa galera e não deixa de ser amigos nossos. Então só tem um jeito da gente conseguir a nova vitalidade do movimento estudantil: é você está sempre reavaliando, está sempre mudando, está sempre construindo essa mudança, como diria Rui Barbosa.
POLITICANDO - Carolina, você só tem 19 anos, e entrou para o DCE do CEFET há dois anos. Como foi isso?
Carolina - Então, gente assumiu por volta de maio. Não por eleição. O DCE não tava funcionando, desde 2001; como se as pessoas não quisessem nem reativar o DCE, não só pra carteirinha de estudante, mas como pra rever o movimento estudantil do CEFET e eles, enfim, puxaram uma assembléia geral, com os estudantes. Lembro que a assembléia sugeriu pra eu entrar na comissão pra dar uma ajuda e eu acabei aceitando. Foi muito no período da greve. E eles pediram até que a gente desse um apoio aos docentes lá e, após a greve, a gente começou mesmo a tentar revitalizar o DCE. Pegamos todos os problemas, os pontos mais críticos. O grande desafio foi enfrentar, reativar, mobilizar; politizar a estrutura toda.
POLITICANDO - Mas você já havia participado de algum movimento estudantil?
Carolina - Bem, eu estudava em colégio particular e um rapaz chegou lá no colégio chamando a gente pra participar da semana da saúde. Dizia ser Secundarista e eu achei aquela intenção “ah, os estudantes e tal, amigos, com aqueles aglutinamentos políticos e tal”, e achei bacana. Ele me chamava de companheira eu estranhava, aí eu fiquei: “Ah, caramba! Será que esse cara é do PT?” [risos] . Mas aí eu acabei guardando muito à sua imagem por causa de uma outra atividade que eu fazia. Sabia que o congresso tava mal. Por que lembro que CEFET, no sábado e no domingo, encontrava com o pessoal lá, e eu tava totalmente por fora do que tava acontecendo. Aí teve uma hora, quando fui novamente ao CEFET e quando cheguei, já não sabia quem era o pessoal do PC do B e do PT. “Vocês são de esquerda? Vocês são da direita?” No final, agente fez alguma coisa, tava todo mundo comemorando. Daí, começou a militância.
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