Pequenas Grandes Causas (continuação)
POLITICANDO – Cite um exemplo dessa melhora
Prof. André - As escolas, por exemplo, não são boas, mas 97% das crianças estão lá. Isto nunca aconteceu. Apesar da falta de qualidade, como objetivo quantitativo, chegamos lá. É muito maior o número de pessoas que hoje possuem água encanada. Outra coisa: o analfabetismo diminuiu muito e o número de pessoas atendidas pelo programa saúde da família cresceu, assim como a expectativa de vida também. Quando eu cheguei no Ceará, em 1966, o índice de mortalidade infantil era de 136 para 1000 e hoje é 22 para 1000. Agora, para zerar esse número é bem mais difícil, porque fatores como pobreza e falta de educação são fundamentais. Em Aquiraz, por exemplo, há anos que não morre uma criança por desnutrição.
POLITICANDO – A injustiça social no Brasil é algo que lhe incomoda muito?
Prof. André – O Brasil é um país que realmente tem uma desigualdade social grande, mas há mais pessoas atendidas nos hospitais, mais escolas, etc. As divisões entre as camadas da sociedade são grandes. Vivemos numa sociedade dividida, rachada. Sobre esse assunto, lembro que Fernando Henrique Cardoso fez um comentário extremamente infeliz, quando declarou que o seu governo não tinha espaço para 15 milhões de brasileiros. Como sociólogo, ele podia ter declarado isto, mas como presidente nunca, foi uma grande bobagem, afinal ele estava falando de brasileiros sem qualquer qualificação profissional. Se alguém procura um emprego e eu pergunto o que ele sabe fazer, ele responde tudo, mas não sabe nada, a verdade é essa.
E nossa sociedade está cada vez mais exigente em termos de qualificação profissional. Um analfabeto não tem espaço para ser caseiro ou empregado doméstico, por exemplo. E o que se faz com essas pessoas que não sabem fazer nada? O Lula deu soluções pra isso. Começou com a Bolsa Família, por exemplo, que é puro assistencialismo, mas o Moroni, da oposição, disse que lutaria para aumentar se fosse eleito. Mas é preciso fazer mais, gerar condições para essas pessoas aprenderem uma função.
POLITICANDO – Mas como o senhor define classe média?
Prof. André – Para os estudos de comunicação a definição de classe é a tradicional: A, B, C, D, E, ou seja, de acordo com o número de salários que se ganha. Isso quer dizer que com R$ 1,00 a mais se muda de classe social, o que é absolutamente ridículo. Mas a noção de classe social é muito mais que isto. É o poder que ela tem ou não, o que faz na sociedade, é a ideologia que ela tem. Para tentar explicar: uma pessoa pode ficar na mesma classe e diminuir seu dinheiro. Por exemplo, um metalúrgico da Volkswagen ganha três mil reais. Qual o professor, que é classe média, que ganha três mil reais? O professor é classe média, o operário não é. Mas o operário vai andar num carro bem melhor que o professor do ensino primário. O operário pensa como operário e o professor que ganha mal, pensa como pessoa de classe média. Ele não tem muito dinheiro, mas conhece pessoas que trabalham em serviços, que trabalham em comunicação, médicos, psicólogos. Este professor não se casa com uma operária e sim com uma pessoa de classe média como ele. A classe média esta aumentando, mas a grana da classe média diminui e isto pode vir a causar um colapso.
POLITICANDO – Qual sua visão sobre o futuro do Brasil?
Prof. André - O Brasil está numa situação muito aquém de suas possibilidades, justamente por isso sou muito otimista em relação o Brasil. Eu acredito que o país pode ser bem melhor em pouco tempo. Não sei se vai ser, mas pode ser. Um exemplo: um colega professor, Manuel Andrade, professor de bioquímica na Universidade de Itapipoca fez um trabalho em uma pequena comunidade pobre, miserável. Ele começou com quatro pessoas e em 10 anos colocou 120 camponeses dentro da UFC. Um deles era pai de oito filhos, vivia na miséria e hoje está terminando mestrado em bioquímica. Uma pequena grande causa. As pessoas de Itapipoca vão estudar lá com ele. Então eu acredito nisso. A esquerda criticou muito quando se estabeleceu no Brasil o trabalho voluntário, diziam que o FHC estava querendo diminuir o tamanho do estado e a sociedade civil estava querendo tomar o lugar do estado. Eu não conheço nenhuma sociedade que tenha se desenvolvido sem a participação da sociedade civil. Dá um exemplo do meu país de origem, há menos de 10 anos atrás eu visitei uma escola e tinha um cartaz com a frase “Junte-se a nós os 150 mil voluntários da escola pública”. Bom, lá todo mundo é escola pública e ainda tem 150 mil voluntários? E um país rico como Brasil não consegue nem pagar as pessoas? Aqui no programa da Rede Globo, “Amigos da Escola” todo mundo é contra, diz que é exploração. Aqui tem trabalho que o voluntariado faz. O Estado não tem tratado com carinho os funcionários. Falando em sentido da comunidade, o rico americano e alemão doam dinheiro para a comunidade. Uma pessoa que não lembro o nome, doou 31 bilhões de dólares a Bill Gates e sua esposa, porque ele criou uma ONG e lá na ONG já tinha 30 bilhões, ou seja a ONG já tem 61 bilhões. Ai o cara diz: “Eu nunca pensei em deixar dinheiro para os meus filhos”. Um brasileiro não pensa assim, mas está começando a pensar. Tem uma pessoa de Fortaleza, que não quer que diga o nome, doou um prédio para a UFC. O sentimento de ajudar, participar, está começando. O Airton Senna deixou uma fundação. O Raí e o Cafu têm fundações. Isso está se multiplicando. Eu e minha esposa temos mais tempo agora e criamos uma ONG que dentre outras coisas já colocou 14 na Universidade em cinco anos. Por causa disso, a Prefeita de Aquiraz está fazendo uma escola espetacular, maravilhosa. É possível fazer muitas coisas. A sociedade está fazendo a sua parte. Que o governo faça a dele.
Página 3
Anteriores : 1 - 2 |