Pequenas Grandes Causas (continuação)
POLITICANDO – Então, na sua visão, a luta das grandes causas da humanidade seria a grande solução para uma participação mais ativa dos estudantes brasileiros?
Prof. André – Veja bem. No caso da questão ambiental, o Brasil é o 3º país que mais recicla lixo no mundo, porquetemos a “sorte” de ter uma pobreza muito grande. É horrível dizer isto, mas é verdade. É a pobreza que limpa a cidade. Estas lutas seriam possíveis em todas as faculdades particulares, juntando-se com as faculdades públicas. No mundo inteiro e no Brasil os anos 80 foram perdidos economicamente, mas politicamente, em termos de construção da sociedade civil foram anos maravilhosos. Colocamos Collor para fora, aconteceram eleições diretas, o povo foi às ruas, construímos váriaslutas. Não lutas sindicais, do trabalho contra o capital, mas lutas por moradia, por hospitais, escolas. Mas essas lutas acabam sendo reduzidas porque quando um grupo trabalha por escola e consegue, a luta acaba. Este é o problema. Outro exemplo: quando uma caminhada pela paz é organizada, algum movimento estudantil se interessa? Eu não vejo isso em nenhuma faculdade participar e também não vejo isso na UFC.
POLITICANDO – As pequenas causas de hoje são as grandes causas de ontem?
Prof. André - Jean Paul Sartre falava da noção do intelectual geral, universal e Michel Focault do intelectual específico. Segundo Focault, as grandes lutas não são mais possíveis, como Sartre fazia na rua, com panfletagem, mas o intelectual podia lutar especificamente, dentro de sua especialidade. Se por acaso sou físico, posso lutar contra o poder atômico, não é verdade? As pequenas causas juntas podiam construir um mundo melhor, já que não existe esta luta por uma ideologia geral.
Um outro francês, Voltaire, dizia que as grandes narrativas morreram. As grandes narrativas são histórias ideológicas que explicam o mundo. Não temos mais isso. O Cristianismo não consegue mais passar isto. O Marxismo morreu em boa parte do mundo. Em faculdades particulares, por exemplo, é possível acontecer uma luta organizada. Seria possível defender interesses dos negros, nordestinos, homossexuais e mulheres, meio ambiente, tudo isso.
POLITICANDO – Há diferença entre o jovem de hoje e o de 30, 40 anos atrás?
Prof. André - Hoje os jovens não são mais passivos do que os de antigamente, mas não encontram condições propícias para partir para a agressividade. Hoje o mundo é muito uniforme. Os EUA ganharam a guerra ideológica e pronto. Hoje o medo é a China, mas um medo de mercado, não de outro projeto. A China está entrando no Chile vendendo carros a $ 460. Já pensou se chegar no Brasil isto? Todos vocês vão ter carro. Como fica o trânsito? Agora não tem uma possibilidade de criar outra coisa, de se engajarem. A geração de vocês vai ter que inventar ou torcer para de alguma forma alguém aparecer para revolucionar. Por exemplo, para os católicos, apareceu o Papa João XXIII, que revolucionou a igreja. Depois veio o João Paulo II e fechou tudo de novo. Vocês, jovens, são da época de João Paulo II. João XXII abriu inúmeras perspectivas e a igreja matou. Nos EUA tinha o Pastor Luther King e como presidente dos EUA, tinha Kennedy com a aliança para o progresso, que se revelou falso, mas tinha a imagem. Nos anos 60 foram muitas revoluções, mas a revolução que precisa acontecer no Brasil é a da educação. Hoje todas as crianças estão na escola e temos que trabalhar pela escola de qualidade. Em quinze anos não vai haver mais analfabetos no Brasil, porque a população mais velha, de 50, 60 anos, que é analfabeta, vai morrer.
POLITICANDO – Mas o sentimento de mudar o mundo não era muito presente na sua geração?
Prof. André – Sem dúvida. Hoje as causas são as pequenas, mas como eu disse, podem se tornar grandes - mas diferentes daquelas que a minha geração pensou e viveu, que tinha como base revolucionar o mundo. Talvez um dia essas grandes causas apareçam e aí sim poderá ocorrer a criação do outro numa verdadeira perspectiva ideológica. O capitalismo está se destruindo, a visão de Marx continua verdadeira. Ele previu que a pobreza aumentaria e naquele tempo já era grande, mas Marx, ironicamente salvou o capitalismo, porque vários movimentos, como o comunismo e o sindicalismo se organizaram e o capitalismo teve que se modificar, estabelecendo novas realidades até chegarem às conquistas trabalhistas de hoje, como a jornada de 8h de trabalho. O capitalismo foi forçado a fazer isso. O que aconteceu foi que ao invés da pobreza aumentar, nasceu a classe média, já populosa. Hoje, nos países ricos, o setor primário varia de 4% a 6% da população, dependendo do país. O “colarinho azul”, operário da produção, é 25% e o restante é colarinho branco, que somos nós que trabalhamos na saúde, comunicação, educação, nos bens de consumo, etc. Mas o fato é que apesar de grande, a classe média não está crescendo do ponto de vista econômico.
POLITICANDO – Como o senhor analisa a Política e Democracia no Brasil?
Prof. André – Estamos fragmentados. Como eu já disse, não existe mais o outro. Nos anos 60 tinha o outro, que era a ditadura. Todo mundo que pensava um pouco era contra e todos iam para o MDB. Todos estavam do mesmo lado contra a ditadura. Fernando Henrique Cardoso, Lula, todo mundo era do mesmo time. Hoje são dez, quinze times diferentes. Com relação à democracia penso que as instituições democráticas são fortes, mas é preciso que haja sucesso econômico e social. É preciso criar uma igualdade de condição social e isto não está acontecendo. Mas quero deixar um recado direto: os jovens podem achar ruim a situação atual e acham que pode até piorar. Mas essa visão não se justifica. A situação hoje está bem melhor do que era, exceto pela desigualdade social, o restante está bem melhor do que era. Não é que esteja bom, mas já foi bem pior.
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