Pequenas Grandes Causas
Nascido no Canadá, o cientista social André Haguette, professor da Universidade Federal do Ceará, é um otimista em relação ao futuro do Brasil e acredita que os jovens atuantes devem e precisam fazer política descobrindo e lutando por pequenas grandes causas.
Um professor de sociologia que chegou há 40 anos no Brasil e que de imediato se apaixonou pelo Ceará. Este é André Haguette, 68, professor titular de Sociologia da Universidade do Ceará e presidente da ONG do Parque de Formação Integral do Tapuio, Fundação localizada em Aquiraz, a 27 quilômetros de Fortaleza. Otimista, o professor acredita que o Brasil vive um momento especial. “A sociedade brasileira está fazendo a parte dela, pensando em responsabilidade social e participação, sabendo que nem tudo pode ficar nas costas do Estado. Mas o Governo também precisa fazer a parte dele”. Neste bate papo descontraído com o Politicando, durante um encontro com estudantes do 6º semestre do curso de jornalismo das Faculdades Nordeste – Fanor, em Fortaleza, o professor, nascido no Canadá e de fala mansa e tranqüila, passeia por assuntos como política, democracia e juventude, relembra com alegria dos anos 60 , dos movimentos estudantis, e deixa uma mensagem de otimismo para o país.
POLITICANDO – Para o senhor, o que é Política?
Professor André Haguette - Política é relacionamento entre pessoas e pode ser definida de várias maneiras, com sentido amplo, como fez Max Weber, que dizia ser um exercício constante, que está em todo canto, o tempo todo, quando realizamos as tarefas mais simples, como fazer compras no supermercado, namorar, etc. No sentido institucional a Política é feita por grupos de pessoas reunidas voluntariamente em torno de um objetivo comum: a obtenção do poder. A Política como instituição luta para ter domínio sobre os outros, para que suas opiniões e vontades sejam aceitas.
Quando se pensa em Política como esta forma de relacionamento que implica em poder e dominação, entende-se que ela é para sempre, diferente da idéia marxista de que um dia pode haver uma sociedade comunista perfeita, onde não exista luta de classes. Mas a verdade é que haverá sempre luta de indivíduos entre si, por questões diversas. A definição de Política a qual estamos mais acostumados é a institucional, que é a definição do controle do Estado, o Estado Nação, ou seja, de pessoas que lutam para ter domínio sobre os outros.
POLITICANDO – Como o senhor analisa os movimentos estudantis no Brasil, no sentido do fazer Política?
Prof. André – A verdade é que mudanças sempre ocorreram nos movimentos estudantis de acordo com o momento histórico de uma época. Alguns foram extremamente importantes para transformação da sociedade. Nos anos 60, nos EUA, os jovens se manifestaram a favor dos direitos civis dos negros e principalmente contra a guerra do Vietnã. No contexto comportamental teve o movimento pela liberdade sexual, de Woodstock, que teve grande importância. No Brasil o movimento se manifestou através do marxismo e foi sempre dividido entre direita e esquerda, sendo mais forte em São Paulo, pela polarização entre a USP (Universidade de São Paulo), que era voltada para a esquerda e a Universidade Mackenzie, de direita. Mas gostaria de salientar que a esquerda no Brasil sempre foi dividida, como, por exemplo, os Maoístas, os Marxistas ou o Marxistas Ortodoxos e certamente esta divisão atrapalhou o movimento de adquirir mais força. Mas a maior qualidade foi realmente preparar grandes lideranças para a política atual. Muitos dos líderes de hoje passaram por movimentos estudantis, como José Serra, Mario Covas, José Dirceu e José Genuíno.
POLITICANDO – Já que o senhor citou o deputado reeleito por São Paulo, José Genuíno, é verdade que o senhor o escondeu durante o regime militar?
Prof. André – Sim. Durante três semanas escondi Genuíno no meu próprio quarto, quando ele estava na clandestinidade. E confesso, estou muito decepcionado com os fatos que ocorreram o envolvendo. São coisas realmente lamentáveis
POLITICANDO – Voltando a falar sobre movimentos estudantis, o fato é que atualmente eles estão esvaziados. Há alguma explicação para isso?
Prof. André - O movimento político foi e continua sendo muito importante, mas a verdade é que ele hoje perdeu. No meu entendimento, nos anos 50 e 60 existiam as grandes causas, como “O petróleo é nosso”, por exemplo, e a presença da União Soviética e de Cuba, que eram os grandes inimigos declarados do capitalismo. O mundo oferecia grandes possibilidades. Os anos 60 foram extraordinários em todos os aspectos Tivemos Martin Luther King, Mao Tse Tung, João XXIII, Charles de Gaule e hoje, eu pergunto, quem são os grandes nomes? Poucos, a verdade é essa. Nelson Mandela, Fidel Castro e quem mais? A verdade é que havia muitos motivos para a juventude se entusiasmar. Hoje o mundo se burocratizou, não existem grandes lideranças, grandes temas. Os temas giram em torno dos EUA e não existe brecha para nenhum outro tema, outra atitude Os jovens vão ter que criar isto. Havia possibilidade da construção de alguma coisa, que se mostrou em alguns casos totalmente ilusório. Nos anos 50 e 60 se construía alguma coisa. A União Soviética foi extremamente importante. Hoje, só se fala em combate ao terror e nós acabamos nos posicionando contra ou favor aos EUA. Hoje é muito difícil ser jovem. Se pensarmos na música então, tivemos o rock n´roll, Elvis Presley, Beatles, Bob Dylan...era tudo muito diferente
POLITICANDO – Os movimentos estudantis são diferentes nas instituições particulares e nas públicas?
Prof. André – Antes de analisar esse tema quero dizer que hoje não existe mais o “outro”. Lembro que o piloto de Fórmula 1, Alain Proust, após a morte de Airton Sena, não tinha mais com quem competir e abandonou as pistas. Na faculdade é a mesma coisa. Não existe mais o outro, ou melhor, o outro é o mercado. O movimento estudantil, principalmente na Universidade Federal, vai viver ainda como o vive o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), aquela coisa marginal, aquele socialismo com reivindicações quase impossíveis. E na verdade só não é mais marginal porque ainda ocorre violência e isso costuma aparecer na TV.
Também me pergunto por qual motivo os estudantes não lutam para melhorar a universidade ou apoiar os professores da UECE (Universidade Estadual do Ceará). O dilema é este, não tem um discurso novo entre o radicalismo de esquerda ultrapassado ou a postura reformista, que é importante, mas numa perspectiva ideológica para transformar o mundo. Temos um impasse no mundo ocidental, mas imagine, por exemplo, a África? Já nas instituições particulares é ainda mais difícil. As alternativas são poucas. Não se pode lutar por mais democracia, porque ela já existe, a verdade é essa. O que poderia existir era política institucional pelas grandes causas; ambiental, lutas pelos direitos da mulher e etc. Talvez nessa linha os movimentos estudantis pudessem dar certo.
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